O por quê da "Divina Comédia"

Desde criança sinto verdadeira atração pelas estrelas. Na fazenda de meu pai, - município de Itabuna – Bahia, não havia iluminação elétrica, por isso, enquanto meus irmãos sob a vigilância de meus pais brincavam como qualquer criança, eu, deitada sobre o gramado ficava a contar e descobrir novas estrelas. Achava lindo, o céu! O luar então me deslumbrava e ainda hoje me encanta. Meu pai, meu grande amigo, homem simples mas inteligente e culto, vendo meu interesse em conhecer os mistérios do Universo, me dava como presente tudo o que encontrava de interessante sobre o assunto, como mapas indicando a posição das estrelas e os nomes das constelações; e outros, dentre eles a “Divina Comédia”. Porém não conseguia ler seus versos; dizia que eram escritos “de trás para a frente”, mas sabia que Dante Alighieri tinha ido às estrelas. Então guardei o livro com muito carinho, pensando: quem sabe, um dia... Passaram-se 55 anos até que em Janeiro do ano 2.000, início do 3º milênio, me veio a inspiração: vou ler, e o que for compreendendo, vou escrevendo; tudo manuscrito. Meditei, conversei com Dante, pesquisei História Universal, Teologia, Religião, Mitologia, Astronomia... durante oito anos.
Agora, carinhosamente, quero compartilhar com vocês o resultado desse trabalho, que me fez crescer como mulher e espiritualmente. Espero que gostem.

domingo, 5 de maio de 2024

 

O INFERNO – CANTO XXXIV

"... O IMPERADOR DAQUELE TERRÍVEL REINO."    

         Na Judeca estão os traidores de seus amos e benfeitores. No meio está Lúcifer que, com três bocas dilacera três, entre os mais horrendos pecadores de um lado Judas, do outro, Brutos e Cássio que mataram Júlio César. Virgílio, a quem Dante se agarra desce pelas costas peludas de Lúcifer até ao centro da Terra. Daí seguindo o murmúrio de um regato sai, então os dois avistam as estrelas no outro hemisfério. Texto do Tradutor

 Na 3ª divisão a Judeca =  Na 4ª divisão o Fosso do Cocito onde está Lúcifer

        Vexilla Regis prodeunt inferni contra nós. (Avançam os estandartes do rei do Inferno) Olha para frente e poderás vê-los”; disse o Mestre.

        Assim como a neblina se estende espessa ou como em nosso hemisfério a noite desce e ao longe um moinho cujas pás são movimentadas pelo vento prende nossa atenção, assim pareceu-me ver um enorme e desprezível edifício sacudido pelo vento. Tão forte era o vento que busquei abrigo por trás do Mestre, já que outro não existia. Estávamos na parte onde cada alma estava submersa no gelo, como se fosse esculpida em cristal - somente em descrevê-lo, ainda fico trêmulo; algumas estavam de pé; outras curvadas sobre o peito ou com as frontes firmadas sobre os pés formando com o corpo, um arco. Quando próximo nos encontrávamos mas a uma distância que na compreensão do Mestre tornava-se segura, indicou-me ele a criatura que foi a mais bela, na Criação; e afastando-me para trás, disse: “Afasta-te! Eis, Lúcifer! Este é o horrendo lugar que em breve deves, com grande esforço, manter teu espírito protegido”. Quanto apavorado fiquei diante daquele semblante, não me pergunte, caro Leitor, pois não saberei me expressar em linguagem humana. Não morri, porém vivo também não estava. Como me sentia procure imaginar se a morte ou a vida em mim se encontrava! Estava eu vendo o imperador daquele terrível reino, tendo o peito fora da geleira. Compará-lo a um gigante não sereia possível, pois apenas um braço de Lúcifer poderia ser comparado a um gigante! Se um dia ele foi tão belo, quanto é hoje horrendo; se teve a ousadia de erguer a fronte contra seu Criador, verdadeiramente é ele a causa de todo mal que o mundo chora. Qual não foi o meu espanto quando vi que naquela estranhíssima figura a cabeça era formada por três faces! A que eu via de frente, era vermelha; as outras, cada uma surgindo dos escuros e largos ombros, mas lá sobre o crânio da infame criatura as duas se ajuntavam a primeira formando assim um só objeto; a face que à direita estava, tinha cor entre o amarelo e o branco; a da esquerda, a cor era morena escura como se fosse queimada pelo sol. Abaixo de cada face, erguiam-se duas tão extensas asas quanto convém em ave de tamanho porte. Vela de tamanho igual a essas asas, não existe em nenhuma embarcação por mais potente que ela seja. No seu agitar constante produziam os três ventos que mantêm congelado o Cocito. Pelos seis olhos chorava; pelas três saliências carnudas abaixo dos beiços inferiores, espalhavam-se lágrimas de sanguínea espuma; em cada boca estava um pecador, sendo que ao mesmo tempo eram eles esmagados, qual moinho a triturar o grão. Mas ao condenado que era devorado pela boca que estava à minha frente, o tormento era maior, porque com as garras, em atroz fúria, Lúcifer rasgava lhe a pele. Disse-me o Mestre: “Esse que esperneia em dor mais cruciante é Judas Iscariotes; (o que traiu Jesus) tem ele toda a cabeça presa pela dilacerante boca. Aquele que, está pendurado na boca da face mais escura, é Brutos, que se contorce a cada dentada; e o que está na boca da terceira face e tem os membros bem robustos, é Cássio. (Brutos e Cássio, que mataram Júlio César.) Mas, a noite se aproxima; devemos então partir pois já vimos tudo que devíamos ver aqui”.

        Seguindo as determinações do Mestre, a ele me abracei fortemente. E tendo ele, escolhido o momento e a posição mais acertada – exatamente quando Lúcifer estendendo as asas se colocou de pernas para o ar, o Mestre, e preso eu a ele, nos longos pêlos do peito do horrendo animal se agarrou; depois subiu segurando-se aos pelos das ancas que se encontrava sobre o lago congelado; chegando à altura onde os quadris se unem às coxas, percebi que meu Guia, ofegante e exausto, agarrando-se a terrível besta, tinha a cabeça voltada na direção em que antes apontavam os pés, como se quisesse subir ao invés de descer.

Aterrorizado pensei que estivesse voltando às amarguras do Inferno. “Te segura com firmeza!”. – disse-me Virgílio cansado, mas com imensa alegria - “porque somente por este estranho caminho é possível se sair do Império do Mal!”. Saindo então por grande fenda de uma rocha, cautelosamente fez-me sentar. Depois, junto a mim, ficou vigilante.

        De onde eu estava curioso ergui os olhos para ver Lúcifer na posição em que o havia deixado, no seu pouso; e o que via? Via Lúcifer tranquilo, de pernas para ar. E à confusão e vergonha que se formou em mim deixo ao povo julgar mesmo sem compreender qual era a grande fenda da rocha por onde saímos. (A fenda formada pelo encontro das duas nádegas de Lúcifer.)

        Então disse o querido Mestre: “Ergue-te e vamos! A metade do dia o Sol já percorreu. Longa é a jornada e difícil o caminho; não temos que passar por salas de palácio; mas por rudes paredes de escuras cavernas é que devemos dirigir nossos passos”.

       “Antes que deixe todo esse abismo escurecido pelo mal, Mestre meu, esclareça-me algumas dúvidas.” – disse eu erguendo-me um pouco mais seguro. “Onde está o gelo? Por que se apresenta Lúcifer assim nessa posição, se antes eu o via de pé? E por que tão rápido a noite desaparece e o Sol nos ilumina?”.

        Respondeu-me o Mestre: “Acreditas que estejamos ainda no centro da Terra onde ao pelo do infame verme me agarrei. Sobre o que me pergunta, faça com que seja divulgado: estás voltando do centro onde a gravidade atrai o peso da terreal esfera. Foste transferido para o lado oposto àquele em cujo cume (em Jerusalém) foi crucificado o que nasceu e viveu sem pecado (Cristo). Tens agora os pés firmados sobre um determinado ponto de espera oposto a Judeca. (Sobre um pequeno globo fora do Inferno) É noite lá; e aquele, em cujo pelo nos agarramos servindo-nos de escada, continua ali na mesma ridícula posição. Aqui ele caiu, vindo da sublime altura; mas a terra, que ele em voos rasantes tentara alcançar, do mar fez um véu e dele se desviando deslizou para outro lado; então, o mais belo dos anjos transformado em terrível monstro caiu nesse hemisfério que também de medo fugiu deixando-o num vácuo; e ao fugir levou toda a matéria, formando a enorme montanha que ao longe se avista”. 

        Lá, nas profundezas desse hemisfério, há um lugar que fica bem distante tanto de Belzebu como do espaço por ele dominado e que a vista não alcança, porém escuta-se o murmúrio de um arroio, que serpenteando desce por uma fenda escavada na rocha um pouco inclinada.

 Para voltar à face iluminada do mundo, seguimos o barulho manso das águas e penetramos nessa escura vereda sem que nenhum de nós procurasse descansar.

Virgílio e eu fomos subindo, subindo, até que por uma abertura circular pude ver a maravilhosa beleza do firmamento. Depois saindo tornamos a ver as estrelas!

Fim da primeira parte.

 

 

 

 

O INFERN - CANTO XXXIII

"TORRE DA FOME"...

O conde Ugolino della Gherardesca conta a Dante a sua trágica morte na torre dos Gualandi. Na Ptoloméia o poeta encontra Frei Alberico de Manfredi, o qual lhe explica que a alma dos traidores cai no inferno logo depois de consumada a traição e que um diabo toma conta do corpo até chegar o tempo do seu fim no mundo. Texto do Tradutor.

(na ANTENORA = 2ª divisão do 9º e último círculo)

        Na cabeleira do crânio que acabara de roer o feroz pecador limpou os restos do violento alimento que comera e disse: 

“Queres renovar em mim a dor que só em pensar me dilacera o coração; porém se o que eu disser for semente que brote infâmia ao traidor que acabo de devorar, mesmo debulhado em lágrimas falarei. Não sei quem és, pois não consigo enxergar tuas feições e nem sei como aqui chegaste; porém ouvindo teu modo de falar sou forçado a acreditar que és um florentino. Deves saber que fui Conde Ugolino e este que acabo de devorar foi o Arcebispo Rogério. 

"Narrar como fui traído pela confiança que nele depositava não é necessário mas, a razão para o meu cruel destino te direi. Preso e levado ao cárcere lá fui morto por maldade deste infame. Não conheces porém a atroz tortura que antecedeu ao meu fim. Estejas bem atento ao que vou expor e saberás se alguém já foi tão cruelmente torturado. Muitas vezes, na torre que depois passou a ser chamada “Torre da Fome”, por pequena fresta eu via passar muitas luas; numa dessas noites quando estava a luz da lua em pleno crescimento, em horrível sonho o véu do futuro rasgou-se como um pressentimento. Vindos do monte que fica entre Lucca e Pisa vi um lobo e seus filhotes a correr. Logo atrás, magros, ágeis e ferozes cães incitados eram pela família dos Galandi, Sismondi e Lanfranchi cujo chefe da caçada era esse aqui. De repente o lobo e seus filhotes cansados, mancando e já muito feridos pelos galgos, pareciam estar em últimas agonias. Ao primeiro clarão do dia acordei com o choro dos meus queridos que comigo estavam e que ainda adormecidos pediam pão. És cruel se tua alma não sofrer ao imaginar a dor que me aguardava; se não choras com o que estais a ouvir, que sofrimento há que te comova; já chegava a hora em que nos traziam o escasso alimento. O sonho, a cada um nos aterrorizava. Da horrível torre então se ouviam martelos a cravejarem as portas. Eu, mudo e paralisado, nos filhos encarei; já esmoreciam. Eu não chorava; o peito parecia uma rocha. Eles choravam. Então, Anselmuccio disse: ‘Do que tens medo pai? Por que nos olha assim?’ Não chorei nem palavra alguma eu disse durante o dia e a noite que seguiu lenta, até que novo dia surgiu. Quando a luz ainda escassa a iluminar o doloroso cárcere se apresentou pude ver meu semblante nos rostinhos das quatro crianças. Delirante de agonia e ódio mordi minhas mãos; pensando eles ser aquele gesto efeito da fome, suplicantes disseram: ‘Menos mal nos será feito pai, se nos comeres; nos vestistes, nos deste a carne e a vida; agora sirva-se de nós pai’! Contendo-me, evitei não mais entristecê-los. Passaram-se dois dias e todos nós em perfeito silêncio... Ah!... Por que, terra, não te abriste evitando tamanha desgraça?... No quarto dia, a luz do sol clareou o ambiente do cárcere. Gaddo caiu-me aos pés desfalecido os lábios murmurando: ‘Pai, socorra-me!’. E morreu. E assim como me estais vendo agora enlouquecido me senti ao presenciar, durante o quinto e o sexto dia um a um, os três, morrerem de fome! Apalpando procurei seus corpos! Não enxergava! Estava eu cego. Durante vários dias, repeti seus nomes, até que a agonia da forme pior que a agonia da dor acabasse comigo.” (Conde Ugolino della Gherardesca, originalmente de família gibelina era, junto com o seu neto Nino dei Visconti, um dos líderes guelfos que exerciam a sua autoridade sobre a cidade de Pisa. Ugolino estava insatisfeito em ter que dividir o poder com Nino então traiu seu partido e aliou-se ao arcebispo guibelino Ruggieri degli Ubaldini que era apoiado pelos Lanfranchi, Sismondi, Gualandi e outras famílias gibelinas. Juntos, eles tramaram a expulsão ou prisão de todos os seguidores de Visconti e Ugolino assumiu o poder. Mas o conde sempre achava que poderia ser traído e por isso tratou de eliminar aqueles dos quais suspeitava. Teria mandado envenenar o seu sobrinho o conde Anselmo da Capraia, temendo que a popularidade do sobrinho reduzisse sua autoridade. Percebendo que os guelfos estavam enfraquecidos no governo de Ugolino, o arcebispo Ruggieri aproveitou a ocasião para traí-lo, divulgando pela cidade a notícia de que o conde Ugolino havia traído a população, e que havia entregado seus castelos aos povos de Florença e Lucca. Conseguiu provocar uma revolta popular que culminou com a invasão do castelo de Ugolino, que foi forçado a se render. Ruggieri, vitorioso, mandou prender Ugolino numa torre posteriormente chamada de “torre da fome”. Prendeu também, na mesma cela, Uguccione e Gaddo, filhos de Ugolino, Anselmuccio e Brigata, netos do conde. Meses depois os pisanenses lacraram a torre e atiraram a chave no rio Arno. Em poucos dias todos morreram de fome. (Baseado em relato de G. Villani)

Após essa terrível narração calou-se; depois furioso e com os olhos revirados com antes cravou os dentes no crânio do maldito; e igual a cão faminto o foi destruindo.

Ah! Pisa! És a vergonha dos que habitam a bela Terra onde seus corpos repousam! Por que os povos vizinhos são tão lentos em ti punir? Depressa se movam Capraira e Górgona (ilhotas do Mediterrâneo na foz do Arnofechando-te a foz do Arno à saída a fim de que teu povo pereça sob as águas represadas! E se ao infeliz Ugolino foi atribuído a traição de entregar seus castelos aos inimigos, por que usaste tamanha ferocidade sobre Ugoccioni, Brigata e as duas crianças  que pela própria idade eram inocentes? Oh! Nova Tebas!    

Seguindo adiante até o lugar onde encontramos outros que, encravados no gelo, padeciam duro sofrimento. (Ptoloméia 3ª divisão do lago Cocito onde são punidos os traidores de seus hóspedes. As almas estão presas no gelo do lago apenas com o rosto para fora de forma que, quando choram, suas lágrimas congelam e cobrem seus olhos. O nome origina-se do personagem bíblico Ptolomeu (I Macabeus 16, 11) onde o capitão de Jericó convida Simão e seus dois filhos ao seu castelo e lá, traiçoeiramente, os mata a sangue frio: “pois quando Simão e seus filhos haviam bebido bastante, Ptolomeu e seus homens se levantaram, e sacaram de suas armas, e chegaram até Simão na sala de ceia, e o mataram, e seus dois filhos, e parte dos seus servos.” [Longfellow 67]). Tinham eles as cabeças pendidas para trás, impedindo-lhes que o pranto da dor rolasse pelas faces; ficando ela reprimida, transformava-se em gelo que obstruía toda a cavidade interior dos olhos

        Com a intensidade do frio meu rosto tornara-se insensível; mesmo assim, desde que a essa eterna geleira cheguei, percebi como sendo um sopro ou branda aragem, a me tocar as faces. Curioso, perguntei: “Mestre, qual a origem deste leve vento? Se aqui não há vapor de ar, de onde ele vem?”. (Naquela época, acreditava-se que o vento era produzido pela evaporação da Terra; se a luz e o calor do Sol não chegavam ao fundo do Inferno, não poderia haver evaporação). Respondeu-me o Mestre: “Irás aonde teus próprios olhos resposta correta te darão. E ali chegando, saberás como é produzido esse suave vento”.

        De repente, um dos padecentes que ali estavam nos disse gritando: ”Ó almas cruéis! Ó almas condenadas que no extremo do abismo estais tirai dos meus olhos essas gélidas camadas e deixa-me chorar até desafogar o peito aflito antes que eu tenha as lágrimas novamente congeladas”. Respondi: “Se queres que te ajude, diz-me teu nome; e se eu não cumprir o que estou prometendo seja eu retirado desse lugar gelado onde estou e levado ao abismo infernal onde estás”. Logo me respondeu: “Sou frei Alberto; pelos famosos frutos do meu amaldiçoado pomar, aqui recebo tâmara, quando me prometeram figo(Frei Alberto Manfredi, de Faenza; um dos frades gaudentes (frades alegres) mencionados no Canto XXIII. Tendo feito as pazes com seus inimigos, ele os convidou para um jantar em sua casa. No dia do jantar, ele escondeu assassinos de aluguel nos aposentos próximos à sala de jantar e deu ordens aos seus servos que, depois que servissem as carnes, deveriam servir as frutas, e que este seria o sinal para que os homens armados saíssem de seus esconderijos e matassem todos os hóspedes. E assim foi feito. Frei Alberto se apresenta da seguinte forma: “: “Sou frei Alberto; pelos famosos frutos do meu amaldiçoado pomar, aqui recebo tâmara, quando me prometeram figo” referindo-se à pena que agora recebe, bem pior que o crime praticado.. Em 1300, data do poema,  Alberto ainda vivia.) Exclamei surpreso: “Oh! Então morreste!”.

Respondeu-me: “Não sei; não sei se meu corpo está vivo ou morto.  São regras daqui, da Ptoloméia; o terrível castigo começa antes de qualquer movimento de Átropos (o mais velho e implacável dos Parcas. Era Átropos quem mandava cortar o fio da vida humana). E para que estas vitrificadas lágrimas sejam por ti prontamente removidas te direi como isso acontece a quem  traição como eu cometi. No exato momento em que a traição é consumada, o corpo do traidor passa a pertencer ao demônio que o governa até o último momento de vida, cujo espírito já está aqui trêmulo a padecer. Se recém-chegado és, fiques sabendo que esse traiçoeiro que ali está, se envolveu em infernal confusão há muitos; é Bianca d’Oria” (d’Oria era um respeitado e poderoso cidadão de Gênova que assassinou o sogro, o corrupto Michel Zanche mencionado no Canto XXII, para usurpar-lhe a fortuna e  o cargo de governador da Sardenha. Ele ainda estava vivo e gozava de liberdade quando o poema Inferno foi publicado e Dante teria sido ofendido pelos amigos de d'Oria numa de suas visitas a Gênova, pelo que foi considerada “a mais atroz das invenções do poeta” –  de o ter colocado no Inferno).

 Respondi: “Este é mais um de seus enganos; Bianca d’Oria desfruta alegremente da vida; come, bebe, dorme e veste roupas”. Então ele continuou: “Não é a de Miguel Zanche, porque sua alma está na negra caverna em Malebolge, submersa no viscoso piche; e esse criminoso aqui, deixou entrar no seu corpo um demônio; o mesmo acontecendo a um seu parente que na traição foi sócio, tirando disso grande proveito”. Depois gritou: “Agora, presta clemente auxílio com tuas mãos abrindo-me os olhos!”.

        Mas nada fiz pois compreendi haver cometido grave erro ao querer tratar com cortesia tal bandido.

        Ah! Genoveses! Raça impura e avarenta que nas ações tem tamanha mancha! Quem, da face da terra vos extinguirá? Vi entre o pior espírito da Romanha um tão grande traidor, que sua alma no Cocito já se banha, enquanto no mundo seu corpo, vivo está!

 

 

 

O INFERNO - CANTO XXXII

"PODE ARRANCAR-ME O PELO MIL VEZES..."

        Os Poetas se encontraram no círculo em cujo pavimento de duríssimo gelo encontram-se presos os traidores. O círculo é dividido em quatro partes. Na Caina, de Caim - que matou o irmão - estão os traidores do próprio sangue; na Antenora, de Antenor - troiano que ajudou os gregos a conquistar Tróia, estão os traidores da pátria e do próprio partido; na Ptoloméia, de Ptolomeu – que traiu Pompeu, estão os traidores de amigos; na Judeca, de Judas – que traiu Jesus, estão os que traem os benfeitores e os superiores. Dante fala com vários, enquanto atravessam o gelo, indo em direção ao centro. Texto do Tradutor

(No 9º  e último Círculo=Lago do Cocito)

        Se eu pudesse usar palavras torpes e grosseiras para descrever o lúgubre e assustador poço que é à base de sustentação de todo o Inferno faria sem constrangimento; mas tais palavras me faltam ao vocabulário; é, pois, timidamente que me proponho a fazê-lo; mas é tão pesado esse trabalho, que me esmorece o ânimo. Descrever o centro mais profundo e terrível do Universo não é tarefa fácil de cumprir. Se o puder mágico das Musas pudesse me auxiliar  como ajudou a Anfião em Tebas, a ele recorreria; (Anfião foi auxiliado pelas Musas, na edificação dos muros de Tebas) mas, não sendo isso possível, fiel e verdadeiro serei nessa empreitada.

        Ó malfadada turba! Quão terríveis são os castigos deste abismo; melhor destino te aguardaria se transformada fosses em bando de gado selvagem. Descemos ao fundo do enegrecido poço que ficava muito abaixo dos pés dos gigantes (Na CAÍNA 1ª divisão do 9º e último círculo onde são punidos os traidores de parentes. Na Caína, as almas permanecem submersas com apenas o tórax e a cabeça fora do gelo. Seu nome tem origem no personagem bíblico Caim que matou seu irmão Abel por causa de inveja (Gênese 4:8).). Impressionado olhava eu o alto muro que circundava todo aquele abismo, quando ouvi alguém dizer: “Tenha cuidado, ó caminhante! Não pises as frontes de teus irmãos desventurados!”

Voltando-me olhei para baixo. Sob meus pés vi a imensa superfície de um lago gelado que poderia dizer fosse feito de cristal, não de água. Na Austrália durante o inverno, as águas do Danúbio não seriam tão enrijecidas nem as do rio Don na Rússia seriam tão geladas. Tão petrificado era esse gelo que, se sobre ele caísse o Tambernich ou o Pietrapana (dois gigantes) com todo seu peso, não o romperia. Qual rã que no pântano, com o focinho de fora se esgoela coaxando, enquanto a camponesa sonha com a alegria da colheita das espigas deixadas no campo após a ceifa, assim gemiam aqueles condenados enterrados no gelo até a cintura, arroxeados, batendo o queixo com a mesma velocidade com que as cegonhas batem o bico. Com a cabeça a pender sobre o peito, a boca a tremer de modo impressionante, nos olhos a amargura refletia!

Quando comecei a observar ao meu redor vi aos meus pés duas almas em tal abraço unidas, que os cabelos se entrelaçavam. Então lhes perguntei: “Quem sois que tão unidas se encontram nesse estreito abraço?” Voltando-se, num curto espaço de tempo me fitaram; porém quando dos olhos as lágrimas lhes brotaram, entre os cílios ficaram em forma de neve. Nunca dois pedaços de madeira presos por pregos se uniram tanto quanto aqueles dois; porém irados, um contra o outro se investiam, quais carneiros cabeceando-se com furor.

        Nesse instante uma terceira alma a quem, de geladas lhes caíram às orelhas, sempre de cabeça baixa disse: “Por que estás a nos olhar de modo tão curioso? Desejas saber quem são os dois que não responderam? A eles e ao seu pai Alberto pertenceu o vale onde o Bisenzio inicia o seu curso (filhos de Alberto dei Alberti, que durante uma briga, se mataram um ao outro). Nasceram de um só ventre; tu, certamente não encontrarás em Caina outros mais dignos de estar aqui com seus corpos cobertos pelo gelo. Nem aquele a quem a mão assassina de Artur, com um só golpe de lança, transpassou o corpo e a alma; (Mordec, filho do rei Artur; foi morto pelo pai, cuja espada o atravessou de lado a lado) nem Foccaccia; (Focaia dei Cancellieri, assassinou  alguns parentes que pertenciam ao partido inimigo) nem esse que ali está de cabeça inclinada impedindo-me de vê-lo e que se chamara Mascheroni Sasso; (florentino que, traiçoeiramente, assassinou um de seus primos) nome bem conhecido principalmente de ti que és toscano. Agora, esperes mais um pouco, para ouvir o que tenho a te dizer: sou Piazzi (Camacion dei Piazzi, que matou seu primo Ubertino); porém, meus crimes não serão considerados os piores, quando aqui chegar Carlino”. (Carlino dei Piazzi; traiu seus companheiros, entregando várias fortalezas ao partido dos gelfos.)

        Recordo-me de ter visto o rosto de outros mil condenados, arroxeados tremendo de frio. E desde aquele momento somente ao lembrar que estive diante daquele horrendo vale gelado fico tomado de arrepios, e também quando me lembro que, tremendo de pavor, no centro onde a gravidade mantém o Universo em equilíbrio, nas trevas eternas do Inferno entrei.

        Aconteceu que sem querer, por sorte ou por desprezo, ao caminhar por entre tantas cabeças presas no gelo, em uma das faces pisei. “Por que me pisas?” – reclamou chorosa – ”Além de estar eu pagando pelo que ocorreu em Monte Árpeti, ainda me maltratas desta forma!”. Imediatamente falei: “Mestre, espera-me aqui; este infeliz me deixou em dúvidas por isso quero compreendê-lo; depois, se estiver ficando tarde, voltarei correndo”.

        Parou então o Mestre; e ao pecador que agora feroz proferia terríveis blasfêmias perguntei: “Quem és tu que tão severamente me repreendes?”. Respondeu-me: “Dize-me primeiro quem és tu que na Antenora, a face me espezinha! Se vivo fosses, certamente menos cruel seu golpe seria”. Respondi: “Sou vivo; e posso nos meus escritos publicar a fama do teu nome, se louvores te dão prazer”. Exclamou: “Quem te fala quer somente ser esquecido. Vai-te! Estás me aborrecendo demais; aqui não há lugar para lisonjas ou intrigas”. Então agarrando o pecador pelos cabelos disse-lhe: “Ou me diz rápido teu nome, ou perderás todo o cabelo!”. Aos berros respondeu-me: “Podes arrancar-me o pelo mil vezes, porém não terás o prazer de saber qual foi meu nome ou apelido e, nem de ver meu rosto”.

        Já havia eu enrolado as mãos nos desgrenhados cabelos e lhe arrancado parte deles; porém mesmo ganindo ele abaixou ainda mais a cabeça, enquanto outro gritou: “Ó Boca! Não vais parar com isso? Não te é suficiente bater os queixos, agora ficas também latindo? Que demônio tem, em ti?!” (Bocca deli Abati; na batalha de Montaperti em 1.260, causou a derrota dos florentinos, passando-se para o lado inimigo). Reconhecendo-o no mesmo instante lhe disse: “Não exijo nada mais de ti, ímpio traidor. O que de ti estou vendo a todo o mundo contarei por ser isso mais infame”. Respondeu-me cheio de ódio: “Vai! Se puderes sair deste horrendo abismo fala o que quiseres, não esquecendo porém do linguarudo que aqui está; podes dizer: "eu vi Roso Duera acompanhado de muitos outros; agora chora pelo ouro que recebeu da França em pagamento por sua traição". E se perguntares quem são esses outros, a resposta terás se olhares agora ao te redor; verás Beccaria, que Florença mandou degolar. Ainda há poucos instantes passou por aqui Gian del Saldanier com Ganellon e Tribaldello, aquele que abriu as portas da cidade de Faenza enquanto seus habitantes dormiam, traindo sua cidade natal”.

Depois disso, deixei-o; e enquanto me afastava em direção ao Mestre, subitamente vi numa caverna de gelo (na ANTENORA 2ª divisão do 9º e último círculo, onde são punidos os traidores da pátria ou partido político. As almas ficam submersas no nível do pescoço, com apenas suas cabeças fora do gelo. O nome foi tirado de Antenor, o príncipe troiano que traiu o seu país ao manter uma correspondência secreta com os gregos.) dois condenados; a cabeça de um e do outro era um só cabelo. Os dois, como esfomeados ao pão se agarrando, um sobre o crânio do outro os dentes aferrava mastigando lhes o cérebro e os ossos, como Tideu que enfurecido, a dentadas triturava o crânio de Menolipo já morto.

        E eu vendo aquela terrível cena, exclamei: “Ó tu que de tão cruel ódio possuído estás, a ponto das carnes do inimigo ferozmente dilacerando-o diga-me o que causou tudo isso. Se eu souber que a razão está contigo e tiver conhecimento de tua culpa e condenação, quando ao mundo eu voltar prometo que farei tua defesa se por Força Superior não for eu impedido de falar”.