O PURGATÓRIO - CANTO IV
"POR ONDE IREMOS, QUERIDO MESTRE!"
Seguindo os conselhos recebidos, os Poetas, através de um caminho
apertado e difícil, sobrem ao primeiro salto. Virgílio explica a Dante que,
encontrando-se em hemisfério oposto ao da terra, o Sol gira em direção
contrária. Vendo muitas almas recolhidas à sombra de um rochedo e
aproximando-se a elas, Dante reconhece seu amigo Belacqua. Ali estão os
espíritos dos preguiçosos, que esperam para arrepender-se , ao término da vida. Texto do Tradutor
Estando a vinha já amadurecida, a vereda que a ela dá acesso é pelo vinhateiro protegida com braçadas de ramos espinhosos e é mais larga do que o rochoso caminho por onde fui subindo após meu Guia assim que a abençoada multidão nos deixou.
Esse caminho lembra o que se faz a pé indo a Noli até ao pico da Bismântova descendo por San-Leo; mas, nessa subida que eu estava enfrentando necessário seria terem-se fortes asas ou insaciável desejo para seguir o Mestre que cuidadoso me servia de luz e dava esperança para continuar. Subíamos por uma vereda escavada entre rochas sempre impedidos por agudas pontas; cada passo dado era sempre ajudado pelas mãos.
Chegados ao fim da íngreme rocha e estando no ponto mais alto encontramos uma ladeira que dava passagem livre perguntei: “Por onde iremos, querido Mestre?” E ele me respondeu: “Cuidado! Não mude teus passos; continue me seguindo. Atentos encontraremos algum guia”. A vista não alcançava tamanha elevação; uma linha que cortasse de modo perpendicular um quadrado, certamente não acompanharia o enorme aclive. Já sem forças ao Mestre falei: “Ó Pai! Volve o olhar para trás; vejas com piedade que me estás deixando só indo assim tão depressa!”. Respondeu: “Sobes por ali filho e não desanimes!” Estendendo o braço indicava uma planície que rodeava o temeroso declive.
Por causa da doçura da sua voz esforcei-me tanto que lhe seguia os passos me arrastando até chegar à altura indicada. Ficamos alguns momentos sentados um ao lado do outro. Primeiro dirigi o olhar para baixo vendo o caminho percorrido; depois, voltei o olhar em direção ao sol; foi então que notei que a luz desse astro vinha pela esquerda.
Virgílio percebendo minha admiração diante da posição em que se encontrava o Sol, disse-me: “Se Castor e Pólux (estrelas pertencentes a constelação dos Gêmeos) estivesse iluminando ao mesmo tempo os hemisférios da Terra e este onde estamos, ainda mais próximo da Ursa a roda do Zodíaco verias se não tivesse este se desviado da costumeira rota. Meditando sobre o que vou dizer logo compreenderás a verdade; se imaginares estar o pico do monte Sião (em Jerusalém) e o deste onde estamos na mesma linha do horizonte mas em hemisférios diferentes, o caminho que no céu o Sol percorre - se teu raciocínio não falhar – a ti parecerá ser contrário um ao outro pois, enquanto em um vai por um lado, no outro segue lado oposto” (Devido à inclinação do eixo da terra em relação ao eixo de sua órbita em torno do Sol, a trajetória aparente do astro, para um observador situado de frente para o oriente, poderá ocorrer à sua esquerda, à sua direita ou diretamente sobre a sua cabeça. Para os observadores ao norte do trópico de Câncer, o Sol sempre passará à direita. Estando ao sul do trópico de Capricórnio, o observador que assiste o nascer do Sol verá ele passar à sua esquerda. Na região tropical, a posição do Sol dependerá da estação do ano. Como praticamente toda a civilização ocidental conhecida na época de Dante vivia no norte da Ásia, África e Europa, Dante estranha o Sol do lado esquerdo...Helder Rocha)
Então eu disse: “Tão claro como agora, Mestre amado, jamais o meu espírito compreendeu quando coberto por dúvidas eu estava. Sei que o maior círculo da Terra que sempre foi chamada pelos astrônomos de Equador, diferencia sempre o inverno do verão. Se pude compreender-te, neste momento aqui no monte do Purgatório vemos o Sol voltar-se para o norte enquanto os Hebreus – em Jerusalém – o veem ao sul. Agora, se quiseres diz-me quanto temos ainda que andar, porque olhando para cima e não conseguindo ver o cume isso me enche de pavor”.
Respondeu-me: “É próprio dessa montanha causar grande fadiga no início da jornada; depois, quem mais alto consegue subir menos cansaço sente; tanto que ao te encontrares no final deste estreito caminho irás subir tão rápido e leve como a nave ao descer a correnteza das águas. Depois deste esforço encontrarás repouso. Do que estou falando comprovarás a verdade”.
2º local - Vale dos Excomungados
Mal o Mestre terminou de falar, eis que perto escutei uma voz; dizia: “Antes de lá chegar, talvez seja necessário descansares um pouco”. Voltamo-nos em direção à voz para ver quem havia falado e o que vimos foi um alto penhasco; seguindo em sua direção fomos contornando quando deparamos multidão de almas. Aproximando-nos percebemos que à sombra do penhasco estavam elas tranquilamente repousando como se vencidas pela preguiça. Uma delas mostrando-se mais exausta que as outras mantinha-se sentada abraçando as pernas com o rosto recostado sobre os joelhos; parecia dormir.
Disse eu: “Veja Mestre; a que ali está ama a inércia; até parece ser irmã da preguiça”. Aquele espírito então se voltou um pouco e sem mudar de posição disse-me; “Ah, é? Pois então vai tu, que és valente!”. Reconheci quem era. Ainda ofegante pela difícil subida a ele dirigi meus passos. Sentindo a minha presença mal ergueu a fronte e com bastante calma disse: “Reparaste como o Sol se move pela esquerda?” Pelo lento movimento e voz tão vagarosa, por algum tempo senti vontade de rir mas contive-me e disse: “Belacqua! Nem choro mais a tua morte! Por que estais aqui sentado? Espera por algum guia? Ou aqui como antes continuas cativo da preguiça?!” (Belacqua=Florentino fabricante de instrumentos musicais e amigo de Dante e tido como preguiçoso.)
Respondeu: “Irmão, tenho que ficar aqui! Não adianta subir pois o anjo de Deus que guarda a entrada do Purgatório não me deixaria entrar porque somente ao chegar à morte é que me arrependi. Então, o tempo que a entrada me deverá será negada é o mesmo que no mundo me durou a vida. No entanto ela poderá ser antecipada pelas orações daqueles que na Graça de Deus estão”.
Porém o Poeta continuava a penosa subida. “Vem!” ordenou-me. “Já brilha o Sol no meio-dia; e sobre Marrocos a noite desce!”
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