O PURGATÓRIO – CANTO XIII
"FALA COM DELICADEZA E SEJA BREVE"
Chegam os Poetas ao 2º compartimento no qual estão os pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os olhos costurados com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora de Sena, com a qual Dante fala. Texto do Tradutor
6º
local – 2º círculo -terraço da inveja
Havíamos chegado ao topo da escada onde novamente o monte apresentava estreita passagem por onde as almas sobem expiando seus pecados. Um terraço de pedra circundava todo o monte, diferenciando da anterior apenas na largura que era menor e fazia curvas mais fechadas divido a altura. Não apresentava relevo de figuras ou forma como a outra. A escada sobre o declive se apresentava toda lisa tendo a cor pálida de pedra.
Disse meu Mestre: “Não podemos esperar que apareça alguém para nos indicar o caminho; temo que demore muito a nos atender e com isso nos atrasemos”. Depois, erguendo o olhar em direção ao Sol e firmando o corpo sobre o pé direito voltou-se à esquerda dizendo:
“Ó doce luz a quem plenamente confio orientai-me aqui pelo melhor caminho como exige esse lugar! Se não houver algo que impeça, não cesseis vosso fulgor para assim nos conduzir!”.
Já havíamos rápido vencido o espaço que na terra calculamos por milha - tanto o desejo estimulava nossos passos - quando sentimos voar em nossa direção invisíveis espíritos que em suaves vozes convidavam para ir à mesa do amor. A primeira das vozes que passou por nós disse claramente “Vinum non habent”. (Bíblia Jo. 2, 3) Não tem vinho. É a frase que Maria disse a Jesus para convencê-Lo a realizar o milagre da transformação da água em vinho.) e ainda bem distante a frase foi repetida; porém, antes que o eco se perdesse no ar outra voz passou dizendo “Sou Orestes” e sem demora igualmente afastou-se (Quando Orestes, filho de Agamemnon foi condenado à morte, seu amigo Pilades se apresentou insistindo que Orestes era ele). Então perguntei: “Que vozes são estas Mestre?” Mas, apenas eu havia pronunciado essas palavras, eis que surgiu uma terceira voz dizendo: “Amai os vossos inimigos!” (Bíblia Mt. 5, 44) é o mandamento da generosidade absoluta, praticada até com os inimigos). Respondeu-me o Mestre: “Este círculo pune a culpa traiçoeira da inveja porém de maneira contrária, pelo amor e pela caridade. Antes que chegues ao portão que dá entrada ao perdão terás certeza disso pelos exemplos que aparecerão. Agora deverás manter o olhar voltado para adiante e então verás ao longo do alto muro de rocha, uma quantidade imensa de espíritos ali aguardando”.
Mas do que antes apurei então a vista e distingui almas envolvidas em ásperos mantos cuja cor imitava a duro penhasco. Indo um pouco mais adiante ouvi de muitos espíritos vozes que invocavam: “Rogai por nós ó Maria” e mais “Pedro, Miguel...” e todos os mais Santos” (É a oração daquele terraço. As almas recitam a ladainha a Maria e todos os Santos, implorando que orem por eles). Acredito que na terra, homem algum por mais cruel que fosse não se comovesse ao ver o que meus olhos presenciaram. Ao aproximar-me delas procurando distinguir melhor nos seus aspectos e gestos qual a punição que lhes causava tanta dor, não pude conter as lágrimas que em profusão me rolaram pelas faces, pois claramente via todo aquele triste sofrimento; apoiados na parede do precipício, se amparavam nos ombros uns aos outros. Lembrou-me os pobres cegos junto às portas das Igrejas nos dias do Perdão quando mutuamente se apoiam suplicando piedade, atitude essa que comove os corações dos fiéis mais do que o som das palavras. E como a luz do Sol aos cegos não se apresenta assim também para aqueles espíritos a Luz do Céu não queria iluminar aqueles espíritos pois todas aquelas almas tinham as pálpebras costuradas com fino fio de arame.
Vendo-lhes as faces e sendo impossível a elas ver a minha, pensei que se eu andasse por entre elas procurando reconhecer alguém, seria verdadeiro ultraje; então olhei para o Mestre como se perguntasse qual deveria ser minha atitude; e ele sabendo o que convinha antecipou-se ao meu desejo dizendo: “Fala com delicadeza e seja breve!...”
Virgílio pisando de leve caminhava, indo para o lado aonde ao portal de entrada faltava proteção. As almas estavam do lado oposto mas bem próximas. Então observei seus olhos e vi a horrenda costura que lhes provocava copioso e amargo pranto.
Voltei-me a elas e disse: “Ó almas que tereis por certo a ventura de ver a Excelsa Luz e somente o vosso desejo vos trará a cura, que a graça Divina vos apague toda a mancha do pecado e faça brotar em vossas mentes o rio de límpidas águas. Assim, concedais-me o que mais desejo saber: se há entre vós alguém que tenha vindo da região italiana. Talvez possa eu reconhecê-lo”.
Irmão, todos nós somo cidadão de uma única e verdadeira pátria; queres saber se algum de nós viveu como peregrino na Itália?”
A mim essa voz pareceu vir de distante por isso dela me aproximei para saber com certeza a quem deveria prestar atenção. Então vi entre outras uma senhora que distante me aguardava. Mas, como poderia eu reconhecê-la? Assim como faz o cego, dirigi meu pensamento naquela direção e perguntei: “Tu que padeces no sofrimento aguardando a subida, quem fostes? Onde nasceste? Dizei-me, te imploro".
“Fui de Siena; com essas lágrimas suplico fervorosamente a Deus clemência e perdão pelos graves erros cometidos durante a vida terrena. Chamei-me Sápia mas não fui sábia; a infelicidade alheia me causava mais prazer do que os inúmeros benefícios a mim própria concedidos. E para que não penses que te engano, saberás o quão louca fui, pelo que vou te narrar. Já estava eu no declinar da existência quando meus patrícios que estavam em combate contra o inimigo acampavam. Roguei então a Deus que não os ajudasse. Derrotados puseram-se em fuga; e eu assistindo toda aquela desgraça exultava de alegria e, como que enlouquecida de felicidade, erguendo os olhos ao céu gritava: ‘Não preciso mais de Deus. A partir daí, porém, não encontrei mais a felicidade. Tendo, no entanto, algum instante de tranquilidade já no fim da existência terrena, quis encontrar a paz em Deus mas, não poderia minha alma pagar a enorme dívida se Píer Pettinagno (vendedor de pentes conhecido em Siena como um homem santo que tinha visões e realizava milagres na cidade. Foi canonizado pela igreja em) em suas santas orações, movido por seu grande espírito de caridade, não houvesse se lembrado de mim. Mas, quem és que nos tens interrogado estando com os olhos abertos e respirando?” (Sápia, da família Bigozzi de Siena, casada com Ghinibaldo dei Saracini, senhor de Castiglioncello. Tia paterna de Provenzano Salvani (ver Purg. Canto XI). Odiava os sienenses e invejava o poder de seu sobrinho. Durante a batalha contra os guelfos de Florença torceu contra o seu povo e vangloriou-se ao saber que eles haviam sido derrotados. Neste canto Sápia é a imagem do prazer cruel da inveja na desgraça dos outros. [O Purgatório por Helder da Rocha]).
Respondi: "Também terei os olhos costurados porém por curto tempo, pois já senti inveja embora levemente. Maior receio me fere o peito por outro tormento que conheci no primeiro círculo e isso me angustia tanto que já começo a sentir seu peso".
Ela continuou: “Mas, quem te conduziu até esse monte tem a certeza de ao mundo voltarás?” Respondi: “Este que está ao meu lado em silêncio. Eu sou vivo ainda; fala pois com franqueza, alma eleita, se queres que lá na terra meus pés se movam com presteza em teu favor”. E ela respondeu: “O que estás dizendo é maravilhoso pois dá prova de predileção divina! Por isso imploro-te me auxiliares quando em tuas fervorosas orações. Também pelo que te for mais precioso suplico-te: quando pisares novamente a terra da Toscana e estiveres entre meus descendentes desperta neles a estima ao meu nome. Irás encontrá-los entre a gente insana que em Telamone em vão se esforça, igual ao que aconteceu anteriormente quando procurava águas do Diana, os almirantes irão nele se afundar”. (A gente insana, os sienenses. Tendo eles comprado Telamone queriam transformar essa cidade em porto de mar, mas não foi possível devido a insalubridade do clima. Não tiveram êxito também pela descoberta de um rio subterrâneo em Siena e que chamaram de Diana. Mais do que outros, os enganados foram os almirante).
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